Ser Introvertido num Mundo de Extrovertidos

12 comics sobre como se comportam os introvertidos e os extrovertidos

Recentemente recebi um pedido de apoio de um adolescente que segundo a mãe seria viciado em jogos de computador. Nada de surpreendente tendo em conta que os adolescentes têm vivido o último ano e meio isolados em casa e tiveram de recorrer aos jogos como forma de entretenimento e socialização.

Quem eu conheci no entanto é que me surpreendeu. Apesar de admitir que passa demasiado do seu tempo a jogar computador, encontrei um adolescente introvertido que prefere ficar em casa e por vezes se sente desconfortável em situações sociais. Mas nada que se enquadre dentro de uma fobia social. Aliás nada que pareça minimamente dentro da psicopatologia.

Acabei por me sentir culpada em nome da sociedade. Ou seja, o mundo dos extrovertidos domina sobre os introvertidos. E quando é que temos espaço para aceitar a introversão como o outro lado de uma mesma moeda?

A pandemia só favoreceu os Introvertidos

Os Extrovertidos que adoram socializar e sair de casa, aquando do confinamento começaram a subir as paredes. Daí muitos pedidos de ajuda para lidar com a ansiedade e depressão. Só mesmo os introvertidos é que acharam a ideia como não sendo assim tão má.

Não é que as pessoas introvertidas não gostem de socializar. Simplesmente têm mais necessidade de espaço pessoal do que os extrovertidos, ou seja a socialização deve ser q.b.

Como ser introvertido num mundo de extrovertidos?

A reflexão que fizemos em conjunto e o nosso trabalho futuro é como aceitar que é bom ser introvertido e não é necessário mudar (! – parece uma ideia estranha vir a terapia para “nada” mudar), ajudar os extrovertidos à sua volta não acharem que este adolescente tem um problema e aprender a ter menos ansiedade em situações sociais para que possa usufruir delas. Q.B.

Uma das minhas teorias terá a ver com o contexto. Este adolescente tem interesses muito próprios. Acredito que caso encontre pessoas com interesses semelhantes aos seus, encontrará o seu espaço e irá apreciar muito mais a companhia de outras pessoas. Até porque falarão a “sua linguagem”.

Será um caminho. Interessante no mínimo. Até porque eu própria sou introvertida e empatizo muito com este adolescente.

Até lá peço aos nossos leitores extrovertidos que continuem a sê-lo mas respeitem quem gosta de ser introvertido. Todos temos o nosso lugar neste mundo.

Publicado em Estilo de Vida, Saúde Mental | Etiquetas , , , , , , , | Publicar um comentário

A Adolescência Roubada

Na sequência do artigo Adolescentes Sem Interesses que sempre tem gerado muito interesse no blogue e na sequência de uma reflexão que tenho vindo a fazer sobre as vivências actuais dos adolescentes, venho partilhar convosco algumas ideias. Digamos que o artigo será revisto e actualizado aos olhos do que vivemos hoje.

O título deste post já vos terá chamado à atenção.

Adolescência Roubada

É o sentimento que tenho. Estes dois últimos anos de pandemia, com dois confinamentos, com isolamento social têm sido duríssimos para cumprir as tarefas de desenvolvimento que é suposto serem cumpridas nesta fase. Os adolescentes estão a ser privados de uma série de experiências importantes fora da família e dentro do seu círculo de amigos. Temos adolescentes sem oportunidade de o serem verdadeiramente.

Ciclo Vital da Família com Adolescentes

Enquanto terapeuta familiar, tenho de me remeter àquilo que chamamos o Ciclo Vital da Família. Nomeadamente ao que é suposto acontecer na maior parte das famílias com adolescentes.

Tradicionalmente nesta fase, os amigos ganham maior predominância relativamente aos pais, sendo que o adolescente deseja diferenciar-se da sua família, procurando a sua própria identidade. Curioso como para encontrar a sua identidade, foge da sua família tornando-se igual aos amigos e numa fase posterior adulta aceitando ou não novamente as tradições familiares.

Este “Rumspringa” é expetável e é expetável que a família tenha a flexibilidade suficiente para deixar o adolescente ir, enquanto oferece porto seguro quando este decidir regressar. A patologia surge quando não há flexibilidade neste movimento.

Mas e quando vem uma Pandemia privar-nos de Viver?

Por isso é que toda esta situação é injusta. É o contexto que está a impedir os adolescentes de viverem fora de casa outras vivências. O preço só saberemos daqui a umas décadas quando conseguirmos avaliar os impactos de tudo isto. Posso dizer é que estamos a deixar vidas em suspenso e a adiar ainda mais a entrada na vida adulta. Quer dizer vão ser adultos sem terem experienciado nada?

As experiências são para ser vividas no tempo certo. É o meu sentimento. Pois quem cresce depressa demais, depois tenta voltar atrás para recuperar tempo. E todos sabemos que isso não é possível.

Por agora posso dizer que os relatos que me chegam vão desde síndromes ansiosas, com ou sem fobia social, a adolescentes presos aos computadores todo o dia (pois essa é a única forma de socialização) e pessoas mais do que amorfas, desmotivadas e sem esperança. A saúde mental dos adolescentes preocupa-me mas a perda de capacidades de interação social também. Estamos a perder a essência daquilo que nos faz humanos.

Mas a questão é: qual a alternativa?

Há uns meses, tive em consulta uns pais muito atentos e preocupados com o possível vício dos jogos do filho. Este adolescente defendeu-se dizendo que só assim conseguia “estar” com amigos. E eu questionei: qual a alternativa?

Deve ser a pergunta que devem fazer enquanto pais e para a qual devem ajudar o adolescente a encontrar resposta. Penso que deve ter sido por essa razão que tantos adolescentes aderiram à vacinação em Portugal. Também eles já não aguentam viver em clausura que nem freiras!

Da minha parte continuarei a procurar respostas a essa questão junto das famílias com quem contacto. Sempre em prol de uma boa saúde mental de todos.

Publicado em Adolescentes, Saúde Mental, Sem categoria, Terapia Familiar | Etiquetas , , , , , , | Publicar um comentário

Casal: A Falácia da Espontaneidade

por do sol, beijo, casal, amor, romance, romântico, silhueta, sombras,  pessoas, cara, menina | Pikist
Restaurar a espontaneidade e romance no casal

Por vezes em Terapia de Casal, é frequente as pessoas queixarem-se de como se perdeu a espontaneidade na relação. Desmontando a questão da espontaneidade, penso que na verdade as pessoas se estão a referir a uma atual falta de iniciativa para realizarem atividades em conjunto ou investir no romance.

Espero com este artigo ajudar a desmistificar esta ideia e poder ajudar mais casais a reencontrarem essa conexão emocional (e física) com o seu Outro significativo.

Reportando ao início do namoro

No início dos namoros, as coisas são mais fáceis e parecem fluir melhor. Aquilo que está diferente é a nossa predisposição para ir mais além para agradar ao outro. Mas nada é espontâneo, é tudo pensado e sentido intensamente. Pensa-se no outro e nos seus gostos, em formas de surpreender, seduzir, agradar…

Porque o deixamos de fazer ao longo do tempo? (A pergunta de um milhão de euros?

Já vos disse que quem mata mais casamentos é a rotina?

O romance nada tem de espontâneo

As relações são construídas, são investimentos pessoais. Não são espontâneas como uma flor que brota no meio do campo porque a sua semente foi levada pelo vento. São verdadeiras danças de pavão e envolvem um jogo muito elaborado de sedução e artifício. Por acaso ia para os encontros amorosos sem se pentear, maquilhar, perfumar ou pensar cuidadosamente na sua roupa? Se todos nós nos apresentássemos num encontro como somos ao acordar, seríamos todos celibatários de certeza!

Aquilo que dá sentido ao texto é o contexto.” Ora se queremos romance e espontaneidade, também tem de existir ambiente para tal. Se chegasse a casa e tivesse a mesa posta à meia luz com duas velas acesas, uma cama cheia de pétalas de rosa, não é muito mais romântico e indicativo de que algo de especial iria acontecer?

Nos casais com a rotina perdem-se expetativas. Ou seja é sempre a mesma coisa da mesma maneira. Claro que a espontaneidade também se vai perder e os momentos a dois se vão mecanizar. Posto isto: de vez em quando o ser humano necessita de novidade e surpresa.

Falando novamente no contexto, qual será a resposta da outra parte se houver algum tipo de atenção especial de si? Nos relacionamentos saudáveis, a pessoa sentir-se-á lisonjeada e com vontade de retribuir. Assim criamos uma espiral de positividade nas relações e um reinvestimento no romance.

De tempos a tempos, será bom revisitar os bons momentos do namoro com as atividades que mais gostaram de fazer.

Pequenos momentos contínuos de romance

Para ter momentos românticos não é necessário todas as semanas encher a cama de pétalas de rosa, mas tem de haver momentos contínuos ao longo do tempo de investimento no romance. Essencialmente é a vontade de agradar ao outro e isso consegue-se muitas vezes com pequenos gestos e conversando com o outro sobre as suas preferências. Embora os gestos grandiosos de vez em quando não fiquem mal!

Formas de começar a trabalhar a espontaneidade (nem todas envolvem dinheiro nem grandes gastos!):

  • Prepare uma surpresa. Um post-it com mensagem romântica num sítio inusitado, uma sms ao longo do dia, uma entrega de flores, um pequeno mimo à chegada… O céu é o limite!
  • Prepare um jantar romântico ou uma saída. Se for uma saída convém não ser surpresa porque no caso das mulheres vão querer produzir-se (alerta aos homens!).
  • Compre lingerie nova. Este também serve para os homens (!)
  • Compre um brinquedo numa sex-shop. Ou algo diferente. Os acessórios não são essenciais mas por vezes podem ser pequenas grandes mudanças na rotina.
  • Reserve uma noite num motel. Só para ser diferente!
  • Vá a um spa. Uma tarde num spa não custa um rim e poderá ser um momento de descontração.
  • Falem sobre as vossas fantasias românticas. Só pensar e partilhar com alguém já cria um ambiente. Depois podem delinear planos e concretizá-los em conjunto.
  • Aceitam-se novas sugestões!

Um último conselho: Libertem-se da ideia de que tudo tem de acontecer de forma espontânea e façam acontecer!

Publicado em Terapia de Casal | Etiquetas , , , , , , , | Publicar um comentário

A importância dos Amigos Imaginários na Infância

Como lidar com os amigos imaginários das crianças? - Curiosidades - Colégio  Web
Como lidar com o amigo imaginário do seu filho?

Pode ser assustador quando o seu filho/sua filha começa a falar em amigos que na verdade não existem. É uma questão que assusta muitos pais pois faz-nos lembrar a esquizofrenia, o tal “falar sozinho” tão característico da doença mental. Na verdade os amigos imaginários são mais comuns do que possa pensar e fazem parte de um importante processo dentro do crescimento infantil.

Brincar é a tarefa mais importante de uma criança

Deve ser levada a sério e não encurtada!

Com o desenvolvimento do jogo simbólico, o famoso “faz-de-conta” que se inicia por volta dos 22 meses, o mundo interno da criança torna-se imensamente rico. Muitas vezes é através do faz-de-conta que conseguimos perceber como entendem o mundo e os adultos à sua volta. Esta é a razão pela qual os psicólogos recorrem muito à ludoterapia – terapia através do brincar em crianças mais pequenas.

Brincar ajuda a desenvolver o cérebro, a adquirir e consolidar aprendizagens, a ensaiar o mundo. Toda a criatividade deve ser estimulada, pois crianças criativas são crianças inteligentes! Ter um amigo imaginário faz parte!

Porque é que aparece o amigo imaginário?

O amigo imaginário pode surgir como uma resposta da criança à sua necessidade de integração de informação com outro interlocutor que lhe responda conforme as suas necessidades. Brincar com outro amiguinho implica ceder às suas vontades no jogo e integrá-lo, o que desvirtuará alguns objetivos da criança.

Ou seja, o amigo imaginário irá fazer o que a criança quer, pois ela é simultaneamente ela própria e o amigo.

A maior parte das vezes, quando questionadas as crianças vão imediatamente identificar esse amigo imaginário como sendo “faz-de-conta”, o que significa que distinguem a realidade da imaginação. No entanto essa distinção também advém da maturação cerebral, daí que na criança mais pequena o real mistura-se com o imaginário. E seja extremamente difícil por vezes perceber o que realmente aconteceu. Ou seja, é um processo. Relaxe e deixe fluir!

No caso particular da minha filha de 4 anos, os amigos imaginários Kevin e Gus surgiram na sequência dos confinamentos em que fechada em casa, não tinha com quem brincar. No segundo confinamento ficou em casa com o pai em teletrabalho e tinha mesmo de se desenrascar! Os amigos imaginários foram essenciais para si. De vez em quando ainda fala deles, mas já é muito raro. Ou seja, com isto estou a dizer que os amigos imaginários foram uma necessidade de resposta à falta de convívio social com outras crianças!

O meu filho tem um amigo imaginário: Como reagir?

Alguns receios dos pais são de que possa haver doença mental na criança (especialmente se há familiares com doença mental) e que os amigos imaginários impeçam as crianças de socializar com outras crianças.

De um modo geral, os amigos imaginários surgem quando a criança está a brincar autonomamente ou como resposta a situações stressantes. Quando em presença de outras crianças, a maior parte das crianças quererá brincar com outras.

Por isso, reaja normalmente à existência do amigo imaginário. Siga aqui algumas dicas:

  • Valide e respeite o seu filho/filha. Não desvalorize, nem diga que não existe. Entenda que é uma necessidade dele/dela. Observe apenas se é mesmo um amigo imaginário ou uma pessoa real e se a criança distingue que é “faz-de-conta”.
  • Ouça o seu filho, interaja nas brincadeiras com o amigo imaginário. É uma forma de validação emocional entrar na brincadeira e também fazer de conta que o amigo imaginário existe. Como diria Descartes, “eu penso, logo existo.”
  • Lembre-se que é um fenómeno transitório. Não durará muito tempo e devemos permitir às crianças ter esta riqueza de um mundo interno pleno de fantasia.
  • No entanto, não deixe de incentivar a interação com outras crianças. É bom termos um mundo interno rico mas temos de o transpor para a nossa realidade.

Se o amigo imaginário se mantiver durante muito tempo ou se denotar que a criança não o distingue como pertencendo ao “faz-de-conta” consulte um psicólogo infantil para tirar as suas dúvidas e fazer uma avaliação.

Publicado em Crianças, Parentalidade Positiva | Etiquetas , , , , , , , | Publicar um comentário

Viver Fora da Caixa: Ajudar as Crianças a Manter uma Relação Saudável com os Ecrãs

Na sequência da formação que fui dar um grupo de pais de Ourém neste mês de Julho através da Equipa Alcance, venho partilhar convosco algumas das conclusões interessantes a que chegámos nessa fantástica manhã de reflexão com miúdos e graúdos.

Uma ressalva: é aceite pela maioria dos especialistas que devemos evitar que as crianças utilizem ecrãs antes dos 2 anos de idade, devido ao desenvolvimento ocular e cerebral.

Crianças com consciência

Foi muito interessante neste workshop ter a presença de crianças e adolescentes com idades compreendidas entre os 9 e os 18 anos. Foi na faixa das crianças que saíram as maiores conclusões e reflexões, de forma honesta e genuína. Realmente as crianças têm consciência de muita coisa e dão-nos lições de vida, a nós adultos (eu incluída) com frequência. Deve ser por isso que adoro ter crianças na sala de terapia!

A Tecnologia Faz parte das Nossas Vidas

A pandemia veio demonstrar o quanto estamos dependentes da tecnologia para viver as nossas vidas diárias. Temos de aceitar que não vamos viver como se fossemos homens e mulheres das cavernas. Por isso a questão que se impõe é: como podemos usufruir da tecnologia sem que ela nos escravize?

Desenvolver uma relação saudável com a Tecnologia

Se a tecnologia nos impede de realizar as nossas tarefas, de cumprir com os nossos compromissos, nos impede de socializar e ocupa grande parte do nosso dia – então estamos perante um vício.

Como podemos então desenvolver uma relação saudável com a tecnologia?

A regra dos 3

Uso este exemplo com frequência que ouvi de um professor. O dia tem 24 horas e podemos dividir em 3: 8 horas para trabalhar, 8 horas para dormir e 8 horas para lazer. E neste aspeto é tudo uma questão de equilíbrio. Aquilo que mais afeta o nosso bem-estar é o desequilíbrio neste triângulo. Quantos de nós sacrificamos o sono e o lazer pelo trabalho? E depois entramos numa espiral de cansaço e desânimo?

Estratégias apontadas pelos Pais e Crianças

  • Definir Regras de utilização adaptadas a cada família. Todas as famílias têm o seu próprio funcionamento e hábitos. Foi engraçado perceber como o tempo mais consensual para uso diário foi de 2-3horas e até os adolescentes concordaram! As famílias também falaram de promover momentos sem tecnologia como por exemplo arrumar telemóveis em gavetas na hora do jantar para promover a conversa.
  • Promover alternativas para ocupação dos tempos livres. Se não estamos no telemóvel ou na playstation, que alternativas oferecemos aos nossos filhos? Não podemos simplesmente retirar-lhes a tecnologia e nada oferecer em troca.
  • Promover a participação das crianças/adolescentes nas tarefas domésticas. Se todos estiverem envolvidos, haverá mais tempo e disponibilidade de todos. O que também aumenta o sentido de responsabilidade e autonomia nas crianças e adolescentes.
  • Envolver a família em atividades promotoras de lazer. E de ligação emocional mais próxima. Seja através de atividades de família como desporto, seja através de piqueniques, idas à praia, ao parque. A imaginação é o limite!
  • Colocar limites à utilização. Algumas pessoas partilharam que aplicações como o Instagram têm avisos de tempo para que as pessoas não utilizem excessivamente a aplicação. Mas até colocar um cronómetro poderá ser útil para evitar usos excessivos.

No final a reflexão mais importante para os pais foi a de que tirar as crianças dos ecrãs implica um grande envolvimento parental ao oferecer alternativas e proporcionar atenção. Mas como tudo na vida: nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Encontrem o vosso equilíbrio famílias!

Publicado em Crianças, Estilo de Vida, Parentalidade Positiva, Psicologia Positiva, Saúde Mental | Etiquetas , , , , , , , , , | Publicar um comentário

As Mães Andam Exaustas!

Invisibilidade: mães exaustas e em crise de identidade

E os pais. E os filhos. De um modo geral todos nós estamos a acusar o cansaço de um 2º ano atípico com várias exigências a todos os níveis: pessoais, profissionais, escolares, de saúde mental e física. É essencial por isso falar de exaustão parental. E dos desafios que as famílias portuguesas e a nível mundial têm vindo a enfrentar.

Deixemos de romantizar a Parentalidade

Assim como devemos deixar de contar apenas as histórias sobre as princesas que são salvas pelos príncipes aos nossos filhos, também está na altura de falar de parentalidade como um conto de fadas. Sendo que não o é de todo. Atenção caro leitor: não estou a dizer que deva deitar fora todos os clássicos da literatura infantil, mas tente atualizá-los ao contexto vivido hoje, nesta era.

Vai ser sempre lindo e cor-de-rosa? Não. De todo. Não se lembra daqueles cocós até ao pescoço? Dos vómitos das gastroenterites? Do silêncio assustador antes de descobrir que estão a enfiar brinquedos pela sanita abaixo? De à noite pisar uma peça de lego e não poder gritar convenientemente pois a criança está finalmente a dormir?

No final do dia, eles vão fazer uma gracinha qualquer e nós vamos achar que são a melhor coisinha deste mundo. Mas antes disso vamos ter vontade de os devolver à fábrica. Muitas vezes.

O que provoca este romance da Parentalidade?

Culpa essencialmente. A amiga culpa. O que não faz de nós melhores pais. Pelo contrário. É a culpa que faz com que os pais se tornem permissivos, que recorram ao suborno para compensar os filhos pela sua ausência, etc, etc. Tudo isto estratégias que em nada ajudam à parentalidade.

A parentalidade tem de ser algo recíproco. Ou seja cumprir a sua função para com os filhos, e fazer parte de uma relação prazerosa entre pais e filhos.

Como posso ter uma relação positiva com o meu filho se ando exausto/a?

Todos nós ouvimos falar do estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre a realidade das famílias portuguesas, especialmente sobre a divisão do trabalho doméstico e cuidado aos filhos entre homens e mulheres. O mais chocante foi perceber que as mulheres têm 40min diários de tempo livre para si mesmas. Onde andam os meus 40min? – foi a minha pergunta logo.

Antes que este post se torne sexista, defendo que é uma questão cultural e os homens e mulheres de hoje estão a ajudar a construir um futuro mais igualitário. Mas essas mudanças ocorrem ao longo de gerações, por isso aguardemos com tranquilidade e continuemos todos a fazer a nossa parte.

Respondendo à questão anteriormente colocada, é uma questão de mudar a sua perspetiva da realidade e a forma como reage ao stress. A realidade será a mesma mas a forma de olhar para ela e de aceitar poderá ajudá-lo a gerir melhor o stress, assim como castigar-se menos perante os desafios.

Por isso noutro artigo falei de Auto-Cuidado. Como pode cuidar dos seus filhos, ter a presença de espírito para exercer uma parentalidade positiva se explode por qualquer coisa? E claro que os seus filhos como boas esponjinhas emocionais que são, vão absorver todo o seu stress e agir em conformidade. Sim, falamos das famosas birras. Já reparou como tudo parece correr de forma mais tranquila na mesma situação quando está mais calmo?

A educação não deveria ser uma questão de estados de espírito dos pais mas sim assentar em consistência!

Temos de dar Folga às Mães e aos Pais!

Essencialmente as mães e os pais devem começar primeiro por si. Depois pelos outros. A quantidade de ódio e crítica que se destila nas redes sociais faz-me questionar se essas pessoas também comunicam de forma destrutiva com os seus filhos.

“É necessária uma aldeia para educar uma criança.” Sejamos a aldeia uns dos outros. Procuremos compreender as opções dos outros e oferecer-lhes as palavras de apoio que necessitam quando estão perdidos.

As mães e os pais não são perfeitos. Estão em construção, tal como os seus filhos.

Como última mensagem, mães e pais permitam-se ter uma folga dos vossos filhos de vez em quando, para que possam carregar baterias e ser melhores pais, mais disponíveis, atentos e apoiantes.

Como costumo dizer em terapia familiar, não se preocupem. Ninguém aqui está a concorrer ao prémio Melhor Mãe ou Pai do Ano.

Publicado em Crianças, Parentalidade Positiva, Terapia Familiar | Etiquetas , , , , , , , | Publicar um comentário

Autonomia Q.B!

Como sair da zona de conforto? - Portal

Escrevo este artigo no rescaldo do caso Noah. No entanto não desejo falar sobre este caso em concreto pois não tenho conhecimentos suficientes para opinar relativamente ao mesmo. Só posso dizer que tendo em conta que trabalho no sistema de promoção e proteção de crianças e jovens, nem tudo o que parece é. Portanto não sejamos demasiadamente rápidos a “linchar em praça pública” estes pais.

Outra ressalva que desejo fazer: nem existem modelos educativos ideais. Existem linhas gerais orientadoras daquilo que é mais promotor do bem-estar da criança no presente e para o seu futuro. O resto são opções pessoais dos pais. Eu defendo o bom senso e o equilíbrio. É um pouco de equilíbrio que vos venho falar hoje.

O Ciclo Vital da Família

A nível teórico olhamos para a família como passando por várias fases da sua construção e desenvolvimento. Em cada uma das etapas há tarefas normativas a cumprir, ou seja as tais linhas gerais sobre o que é suposto acontecer no desenvolvimento das crianças e as competências que os pais devem promover, assim como os desafios à família como um todo. Depois existem os eventos não-normativos (divórcio, morte de um dos membros, doença prolongada, etc).

Em quase todas as etapas da família com filhos, encontramos a dicotomia autonomia vs. dependência.

Autonomia vs. Dependência

Os bebés humanos são durante muito tempo, extremamente dependentes dos seus progenitores. Vão progressivamente adquirindo várias competências como andar, falar, exprimir as suas vontades, etc. É função dos pais ir estimulando essas aquisições. Até aqui estão a acompanhar o meu raciocínio?

Este movimento para a autonomia é natural para a criança e deveria ser desejável para os pais. Todos nós sentimos orgulho quando dizem que os nossos filhos estão muito desenvolvidos para a idade. Infelizmente o foco desse desenvolvimento é muitas vezes a um nível mais “académico” ou cognitivo do que ao nível do saber-fazer. Uma criança pode contar até 20 aos 3 anos, mas ainda continua sem ser treinada para deixar as fraldas (para chegar a um extremo).

Ou então, como me acontece com frequência, tem 12 anos e não sabe atar as sapatilhas, nem sabe aquecer o leite no micro-ondas. Isto é preocupante porque esta competência já devia ter sido atingida há muito tempo. Este saber-fazer coisas do dia-a-dia que permitam à criança desenrascar-se, são aprendizagens tão ou mais válidas do que as escolares.

Não é a minha área, mas as colegas das áreas da fisioterapia, psicomotricidade e terapia ocupacional queixam-se de falta de literacia da criança a nível motor. Por isso é que se tem vindo a falar tanto do pouco tempo que as crianças passam na rua a brincar, a correr, a subir escadas dos escorregas, a trepar pelas cordas de escalar, a andar de bicicleta… Não sabem saltar!

Qual é o problema? Esta falta de literacia a nível motor reflete-se diretamente nas aprendizagens e na gestão dos comportamentos e emoções.

In extremis, não promover autonomia numa criança ou num adolescente com competências básicas, adequadas à sua idade, pode ser considerado negligência parental, uma vez que os pais não estão a cumprir a sua função de preparar os filhos para a Vida.

Ora o que é que pode tornar uma criança mais dependente?

O Medo dos pais. Medo de serem julgados como negligentes, medo que algo de mau aconteça, medo de não serem mais necessários na vida dos filhos. Medo pura e simplesmente.

Conto-vos uma história. A Ana (nome fictício) era uma menina de 9 anos muito dependente da mãe em tudo e cheia de medos, medos que se tornaram obsessões. Tinha medo que a mãe ficasse doente e morresse. Ora a mãe trabalhava num hospital. Compreendem a dificuldade acrescida? Sim isto foi muito antes do covid sequer! Ela lavava as mãos muitas vezes e vivia preocupada. Tinha dificuldades em fazer amigos na escola.

Ora nós trabalhámos os medos da Ana e a auto-estima e ela foi ficando progressivamente menos preocupada com a mãe e mais confiante na escola. Quando ela passou para o 5º ano, eu sugeri que ela pudesse ir de transportes públicos para a escola com as amiguinhas. A mãe ficou em pânico! A Ana ficou super feliz! Lá concordou e ia espreita-la na paragem sempre que podia e ia sempre esperá-la lá (apesar da paragem ser a 50m de casa). Ora como já devem ter percebido estamos a falar da Marinha Grande, uma cidade pacata e tranquila…

Aqui a sorte da Ana é que alguém de fora com autoridade (que me foi investida pela família quando pediram ajuda para a filha) potenciou os ganhos progressivos de autonomia. Eu sugeri no sentido de ser um risco calculado, com muitos mais ganhos para a família do que a possibilidade de perdas. Foi uma aposta ganha. Para os pais e para a filha. Perdi-lhes o rasto depois mas espero que esses ganhos ainda se mantenham hoje. Neste momento a Ana deve ser uma jovem de 16 ou 17 anos.

O Medo Coletivo

Há casos mediáticos de saídas de casa que não correram bem. Falo por exemplo do Rui Pedro ou da Maddie. São marcantes pelos seus contornos, pelo sofrimento dos pais, pela ausência de respostas. Ficam na nossa cabeça como um daqueles pesadelos que nenhum pai ou mãe quer viver.

Embora muitos pais não falem diretamente destes casos, acredito que a raiz do medo muitas vezes é essa. E o medo é uma emoção muito poderosa. Se por um lado nos protege muitas vezes do perigo, por outras paralisa-nos.

E depois damos desculpas a nós próprios: “ah ainda é muito pequenino” ou “coitadinho ele ainda não sabe fazer.” Ou ainda “quando chegar a idade X, eu depois ensino.”

Quando é a altura ideal para ensinar determinadas tarefas?

Eu diria quando a criança começa a demonstrar interesse. Depois tudo pode ser adaptado à sua idade. Se os seus filhos de 3 anos quiserem lavar a loiça, se calhar é melhor não começarmos já pelas facas…. Mas e se eles se mostrarem competentes e cuidadosos? Ou não será nossa tarefa ensiná-los a ser cuidadosos? Assim como arrumarem os seus próprios brinquedos ou até mesmo limpar o pó?

Ir à casa de banho sozinhos, tomar banho sozinhos, vestirem-se sozinhos, preparem o seu próprio pequeno-almoço…. Tudo isto é preparar para o futuro. Ao ritmo de cada criança, sem grandes exigências. Embora haja uma altura em que somos nós pais a empurrar nesse sentido e eles a quererem ser crianças. Noutras situações (acontece muito com os adolescentes) são os filhos que querem voar mais alto.

Se vos puder deixar com um conselho: pais promovam a autonomia dos vossos filhos. Eles nunca deixarão de ser emocionalmente dependentes de vós. Mas serão com certeza adultos muito capazes!

Publicado em Parentalidade Positiva, Terapia Familiar | Etiquetas , , , , , , , , , , , | Publicar um comentário

Os #3 Inimigos do Sucesso

Porque é que apesar de sermos pessoas capazes, às vezes não conseguimos atingir os nossos objetivos? Como ultrapassar as nossas limitações e atingir o tão almejado sucesso? Foi o tema de uma mini-palestra que uma amiga me pediu para fazer junto dos colaboradores da empresa onde ela trabalha e partilho convosco algumas ideias.

Quem me conhece sabe que eu não sou muito de palestras motivacionais, mas de vez em quando lá gosto de colocar a minha ciência a funcionar em prol das pessoas, nomeadamente da motivação. Normalmente do desenvolvimento pessoal e não tanto das vendas, mas esta amiga é mesmo do coração!

Querem saber como é que às vezes damos tiros nos próprios pés quando não sabemos focar-nos nos nossos objetivos?

Foco acima de Tudo

Tudo aquilo a que dedicamos atenção tem tendência a desenvolver-se. Serve para as plantas, as relações humanas e as nossas vidas de um modo geral. Mas para isso é necessário reduzirmos a probabilidade de dispersarmos a nossa atenção com demasiadas tarefas ao mesmo tempo. Sim, eu sei que se for mulher e estiver a ler isto, vai dizer que se dedica ao multi-tasking. Mas vamos ser sinceras: às vezes não acha que está a fazer tudo e não faz nada de jeito? E que anda sempre exausta? Isso é o custo da falta de foco e de não sabermos dizer que não a determinadas tarefas ou não as definirmos como não prioritárias. Nem tudo pode ser prioritário. Algo invariavelmente terá de ficar para trás.

Então quais são os principais inimigos do Sucesso?

#1 Auto-Boicote

Sim há pessoas que tropeçam nos próprios pés. Têm tudo para dar certo e mesmo assim falham. Como? Várias razões sendo que as mais óbvias são a falta de foco, não definir bem objetivos, não visualizar os passos necessários para os atingir e, principalmente na minha opinião, no fundo não aceitar que o sucesso é possível.

A nossa mente é um instrumento poderosíssimo caso seja bem utilizado. Ter pensamentos positivos e optimistas é meio caminho andado para o sucesso. Fazer exercícios de visualização de si mesmo a ultrapassar desafios e obstáculos e a chegar ao cume também.

#2 Procrastinação

Este é o meu favorito pessoal. É comum quando estamos demasiadamente stressados e assoberbados depois começarmos a adiar, adiar, adiar…. O que acontece? Fazemos tudo sempre quando estamos entre a espada e a parede, reagindo apenas. O que acontece quando apenas reagimos e estamos em modo sobrevivência? Sim adivinhou. Disparate.

Planeamento e execução atempada resolvem muitas dores de cabeça. Pare de adiar, pense, planeie e execute. Os seus níveis de cortisol no cérebro agradecem imenso.

#3 Auto-Comiseração

Você é a vítima das circunstâncias ou o herói da sua história? Se estamos demasiadamente mergulhados no fosso a fazer uma festa de auto-comiseração, pode ser bom para atrair a atenção dos outros. Mas passar demasiado tempo nesse registo, retira-nos o poder de fazer algo por nós e pela nossa vida. Se somos vítimas, temos de esperar que alguém nos salve. E depois? Como diria a minha mãezinha: “Fia-te na Virgem e não corras!”

Ninguém salva ninguém, ninguém muda por ninguém. Diz-se isto dos viciados mas pode aplicar-se a quase todas as situações da vida. Pare de ter pena de si próprio e seja o autor da sua história!

Então como podemos manter-nos motivados e atingir o sucesso?

•Tenha a Energia Certa

•Invista Tempo e Atenção Diários

•Aceite os Contratempos como parte do Processo

•Seja Paciente

•Pratique a Gratidão

•Use Mantras Motivacionais

•Coopere em vez de Competir – Lei do Retorno

•Celebre sempre!

Espero ter ajudado! O grupo da palestra gostou muito. Não prometo que ajude nas vendas mas pelo menos levanta a moral!

Então o que vai fazer por si hoje?

Publicado em Estilo de Vida, Psicologia Positiva | Etiquetas , | Publicar um comentário

A (Eterna) Culpa Materna

Dia da Mãe – Externato Santa Margarida

Talvez este não seja o texto mais festivo para comemorar o Dia da Mãe. Mas acredito que seja necessário “pôr o dedo na ferida”.

Esta semana estive a devolver uma opinião sobre um encaminhamento de uma professora. Fiz aquilo que é suposto fazer, ou seja uma anamnese para perceber se as preocupações da professora era coincidentes com as dos pais e se estes poderiam acrescentar algo mais. A meio comentei que o facto de a criança ser discreta na escola mas ser praticamente o oposto em casa (extrovertida, faladora, expansiva) era sinal de uma vinculação segura e do bom trabalho dos pais, a mãe emociona-se e chora.

No final, mediante os sinais e as dificuldades demonstradas, sugeri uma avaliação compreensiva. A mãe depois explica a sua emoção. Achava que enquanto mãe estava a fazer algo de mal pois sabia que a criança tinha dificuldades e vivia com o medo de um diagnóstico de autismo.

Como é óbvio, não posso garantir que não seja. Apenas pude abrir o leque para as imensas possibilidades e particularidades do desenvolvimento infantil e a multiplicidade de síndromes desconhecidos existentes. Mas para isso precisamos de avaliar em várias frentes (em equipas multidisciplinares) para depois dar a melhor resposta.

De onde vem esta culpa toda?

É cultural. Não posso apenas culpar Freud. Mas mais do que cultural, é biológico. As mães (e os pais) querem proteger os filhos, dando-lhes o melhor. Quando isso não é possível e eles apresentam problemas, lá vem a amiga culpa martirizar as pessoas, insinuando pensamentos de que “não estão a ser bons pais”.

Para as mães então, é particularmente difícil. Ora carregamos no ventre durante 9 meses uma criança, a nossa função é parir um ser saudável. Esta sensação de culpa é muito visceral. Eu diria que é inevitável mesmo sentir alguma culpa.

Agora não podemos deixar é que a culpa nos consuma o resto das nossas vidas. Porque muitas das vezes a culpa não é nossa, é o acaso, a aleatoriedade existente no mundo natural. E a culpa não pode ser desculpa para a inércia.

O tramado é aceitar que na roleta russa nos tenha logo calhado “uma má mão”.

Os diagnósticos-fantasma

É mesmo um fantasma na mente dos pais. Como o pior diagnóstico que se pode receber quando uma criança apresenta alterações comportamentais. Felizmente o Autismo é mais raro do que possa parecer, mas há outras alterações neurológicas ou sensoriais que causam “mossa” na vida das crianças e que não podem ser ignoradas.

Este medo deste fantasma paralisa os pais muitas vezes. Fá-los querer enfiar a cabeça na areia como as avestruzes. Ou então deixa-os em estado de choque durante tanto tempo, que necessitam de tempo para fazer o “luto do filho saudável”.

Ora para nós vários técnicos que trabalhamos com desafios infantis, é um verdadeiro exercício de frustração pois sabemos que a intervenção precoce é chave no sucesso das crianças. Muitas delas quando chegam à vida adulta ou até mesmo adolescência, já superaram largamente esses desafios na infância.

Resta-nos ser compreensivos. Dar tempo aos pais para que aceitem que não é o fim do mundo e tem solução. E dar tempo para lidem com a (maldita) da Culpa.

Liberte-se da Culpa

A Culpa não pode ser desculpa para não procurar respostas ou soluções.

Comecemos por fazer dois exercícios. Primeiro de manhã repita todos os dias: “Eu sou a melhor mãe/pai possível para o meu filho/a.” Porque é! Se perguntar aos seus filhos se preferiam ter outro pai ou mãe, caso não estejam para brincar consigo, a resposta honesta é: não!

VOCÊ É A MÃE/PAI PERFEITA/A NA SUA IMPERFEIÇÃO! Se não fosse imperfeita, seria um autómato. Lembre-se disso.

Segundo exercício, paremos de ser tão intolerantes com as falhas dos outros pais. Sejamos mais apoiantes uns com os outros. Isso diminuirá a culpa de todos nós.

Outro conselho: siga o seu instinto. Se não lhe parece normal é porque não é! Noutro artigo já falei sobre sono e o facto de não ser normal os bebés e as crianças dormirem mal. A sociedade diz-nos: “ah é normal, até aos 3 anos vai ser assim.” Mas se há algo que aprendi com a minha própria maternidade, é que temos de ir à procura de respostas e alternativas. Para melhorar as dificuldades dos nossos filhos e a nossa saúde mental.

A minha profissão é basicamente ajudar as pessoas a verem alternativas e a procurarem soluções. Eu própria já estou programada desse modo. Não têm ideia da quantidade de pessoas amigas a quem já recomendei que levassem os filhos aos osteopatas, aos homeopatas ou aos fisioterapeutas à procura de respostas. Com ótimos resultados para todos!

Uma nota mais pessoal

Durante a minha gravidez, apanhei o CMV – Citomegalovírus. O que causou alguns problemas à minha filha e ela terá de ser vigiada até aos 10 anos de idade. Poderia ter sido pior, por enquanto não há défices neurológicos demarcados, apenas um problema de visão. Estive hospitalizada um mês antes do parto, crente de que iria ter uma criança com uma séria deficiência. Dei à luz nessa perspetiva mas convenci-me que faria o meu melhor.

Senti culpa sim. Mas libertei-me dela para poder sem pudores procurar respostas. Quero que a minha filha cresça o mais que puder sem se sentir restringida pelas suas limitações. A culpa deu lugar ao orgulho pela menina que ela é. Ainda falta saber como isso afetará na escola? Cá estaremos para procurar soluções.

Publicado em Estilo de Vida, Parentalidade Positiva, Terapia Familiar | Etiquetas , , , , , | Publicar um comentário

A banalização da Violência na Cultura e nas Famílias

Pode ser uma imagem de texto que diz "SEREI o QUE ME DERES... QUE SEJA amor ABRIL MÊS DA PREVENÇÃO MAUS TRATOS ΝΑ INFANCIA REPÚBLICA PORTUGUESA BA CPCJ"

É na família que acontecem as melhores e as piores coisas da nossa vida. E é na família que veiculamos a nossa cultura. Já diziam os meus professores.

No mês de Abril assinala-se o mês da prevenção dos maus tratos infantis. Vai reparar que vários locais públicos vão ser decorados com um laço azul e algumas iniciativas vão acontecer. A intenção é consciencializar a população geral para esta problemática, alertando para os efeitos a longo prazo nas crianças da exposição à violência ou do exercício de violência física ou verbal sobre elas.

Será que estamos verdadeiramente atentos?

A pandemia e o confinamento obrigatório vieram colocar em situação de maior fragilidade e stress as relações familiares. Mesmo nas famílias mais equilibradas, o barco desequilibrou-se para alguns dos lados. Felizmente algumas pessoas estavam atentas e encaminharam e outras vieram pedir ajuda diretamente.

No entanto, os números oficiais (que são sempre sub-estimados) e o volume de trabalho de quem está no terreno vêm demonstrar uma séria dimensão do problema.

Porque se recorre à violência?

Só há bem pouco tempo em Portugal se criminalizou o bater na criança. O que significa que ainda não houve tempo para uma mudança cultural e de costumes. Demorará algumas gerações até tornarmos a tradicional “palmada” uma coisa do passado.

A violência (ou a palmada) é eficaz no momento. Pára imediatamente o mau comportamento. Mas o que aprende uma criança com a palmada? O que aprende uma criança com o exercício da força? Que argumentos usará nos seus outros contextos quando quiser provar o seu ponto de vista?

O leitor poderá argumentar: “Ah mas eu levei muitas e estou aqui impecável.” Estará mesmo? Vamos falar das suas cicatrizes de infância?

A cultura familiar de violência

A violência parece ser uma cultura familiar, é aceite como natural. Naquelas famílias em que há um preconceito da violência como algo banal, aí é que temos problemas e a intervenção eventual ocorrerá.

Numa casa onde há recurso com frequência à violência, há confiança entre as pessoas? Os filhos sentem os pais como porto seguro ou como fonte de medo e repressão? Que efeitos a curto, médio e longo prazo podemos esperar? Deixo as questões para pensar.

São os pais de hoje que recusam o uso da força e da violência que trilham o caminho de amanhã. Mas não será fácil. Exercer uma parentalidade positiva (mas firme e consistente) dá trabalho. É um investimento a longo prazo. Mas que rende muitos juros no futuro!

Adultos que já foram Crianças

Ainda sobre o argumento “eu levei muitas e só se perderam as que caíram ao chão”, isso é algo que dizemos a nós próprios para justificar as cicatrizes que as palmadas nos deixaram. Isso é algo que dizemos quando o nível de violência foi mínimo.

Mas e quando a violência foi recorrente e recaiu em maus-tratos físicos e/ou psicológicos? A violência fica dentro de nós acumulada. E quando somos pais, por vezes recorremos a esta primeira resposta mais básica e automática. Mesmo que tenhamos prometido a nós próprios que não o faríamos e nos martirizamos quando fazemos. Depois caímos num ciclo de violência-culpa-tentativa de remediação que não favorece a educação das crianças nem lhes oferece a consistência educativa de que eles tanto necessitam.

Eu sei que custa. Mas quando toma consciência que a violência está dentro de si e aceita isso, pode então começar a trabalhar no sentido de não passar essa herança aos seus filhos, para que os seus netos não necessitem de sentir esses efeitos.

Que efeitos são esses?

Efeitos duradouros da violência

Deixo também a questão para pensar: porque é que está em discussão no parlamento a proposta de lei para aprovar o estatuto de vítima de violência doméstica para as crianças que são testemunhas de violência doméstica? Ver, ouvir, testemunhar é quase tão mau ou pior do que levar. O sentimento de impotência vai acompanhar-nos o resto da vida.

A primeira vez que conheci um adulto testemunha de violência doméstica em criança confesso que fiquei sem reacção. Aquela pessoa de 40 anos que chorava copiosamente os seus traumas de infância marcou-me. As que se seguiram, que infelizmente têm sido bastantes ao longo do tempo, também.

Perdoe-me o leitor, mas eu nunca mais vou deixar alguém dizer à minha frente que “as palmadas fazem bem” ou que a criança “só viu” violência doméstica e não é tão mau como “levar mesmo”.

É mau sim. Causa traumas a longo prazo. Doença mental crónica, problemas de auto-estima e auto-confiança, problemas relacionais. Só para citar alguns.

Aquilo que eu mais vi e experienciei nestes adultos foi Síndrome de Stress Pós-traumático. Sim, aquilo que os soldados que estão em cenário de guerra sofrem. Nem todos precisamos de ir à guerra para viver o nosso pequeno inferno pessoal.

Por isso sim, o mês de Abril da prevenção dos maus-tratos na criança continua a fazer sentido. Temos de pensar a longo prazo e no futuro. Nas crianças, nas famílias, nas comunidades, na cultura. Na sociedade do amanhã.

Publicado em Crianças, Psicoterapia, Saúde Mental, Terapia Familiar | Etiquetas , , , , | Publicar um comentário